Pede-se crédito para comprar a máquina. Não se escreve o que a máquina vai faturar.
Situação
Cooperativa de crédito, carteira de pessoa jurídica. Boa parte das operações é investimento: máquina, veículo, imóvel, reforma — crédito que existe para o negócio passar a produzir algo que ainda não produz.
O que encontramos
Lendo dezoito propostas aprovadas item a item, um número saltou. Uma única proposta, entre dezoito, dizia qual receita nova o investimento iria gerar. Pede-se crédito para comprar a máquina e não se escreve o que a máquina vai faturar.
Ao lado dele, os itens que sustentariam a conta estavam igualmente ausentes:
Sobre as dezoito propostas analisadas.
Pró-labore e despesas variáveis não apareciam em proposta nenhuma. Aluguel, em duas. Custo da mercadoria vendida e folha de pagamento, em cinco de dezoito. São exatamente as linhas de que se precisa para saber se a parcela cabe — e, no caso do investimento, para saber se ela cabe depois que a máquina entra em operação, que é uma conta diferente da de hoje.
Vale dizer o que isso não significa. Não significa que as operações eram ruins: o gerente conhece o associado, o comitê tem experiência, e a carteira respondia. Significa que a decisão se apoiava em conhecimento que não estava escrito — e conhecimento não escrito não sobrevive a uma troca de gerente, não pode ser conferido pelo comitê e não deixa rastro para a revisão de quem já foi aprovado.
O que mudou
Para operação de investimento, a proposta passou a precisar de uma conta explícita: a receita esperada depois do investimento, de onde vem a estimativa e o que acontece com a parcela se ela não vier. Não é projeção financeira elaborada — são três linhas que obrigam quem escreve a ter feito a pergunta.
A lição
Crédito de investimento é a única modalidade em que a capacidade de pagamento do presente não responde à pergunta. Se a proposta não diz o que o investimento vai gerar, ela está pedindo que se decida sobre um negócio que ainda não existe, com os números do negócio que existe.