O limite não protegia a carteira. Premiava quem já tinha dado certo.
Situação
Indústria com venda a prazo e carteira pulverizada: mais de vinte mil clientes cadastrados e pouco mais de mil com alguma compra nos últimos doze meses. O limite de crédito era um campo preenchido no cadastro, sem regra de cálculo.
O que encontramos
Quase quatro em cada cinco clientes cadastrados não tinham limite nenhum atribuído. Entre os que tinham, a soma dos limites chegava a cinco vezes o risco que a empresa de fato carregava — o cadastro media uma operação que não existia.
O achado que mudou a conversa veio ao cruzar limite com pontualidade. Quanto maior a faixa de limite, mais pontual o cliente; e os sem limite eram, de longe, os piores pagadores. Mais: 87% de todo o valor vencido estava concentrado justamente em quem não tinha limite atribuído.
A faixa até R$ 1 mil reúne pouco mais de cem clientes; as demais, milhares.
Lido rápido, o gráfico sugere que o limite protege a carteira. Lido devagar, diz o contrário: o limite vinha depois. Era concedido a quem já havia comprado bem por tempo suficiente para alguém reparar. Funcionava como prêmio por histórico, não como instrumento de risco — e quem oferecia risco era exatamente quem nunca tinha passado por análise.
O que mudou
O limite deixou de ser cadastral e passou a ser calculado, com equação própria para cliente novo e para cliente antigo. Clientes sem limite deixaram de ser tratados como ausência de informação e passaram a ser fila de análise, priorizada por valor vencido. E a consulta a birô, que estava contratada mas quase não era lida — dois terços dos clientes ativos não tinham nenhuma leitura nos três meses anteriores —, entrou como passo obrigatório do cálculo.
A lição
Quando o limite é consequência do histórico, ele mede o passado e não protege o futuro. O risco não está em quem já comprou bem: está em quem nunca foi avaliado.